A onça perdeu o caminho

Por Werney Serafini

Quem em Itapoá não conhece ou já ouviu falar do Caminho da Onça?
Contam os antigos moradores que era apenas uma picada cortando a mata, entre o mar e o Saí-Mirim. Por ela passava o maior predador da fauna brasileira, hoje na lista dos animais quase ameaçados de extinção. A Phantera onca, da ordem dos carnívoros, membro da família dos felídeos e símbolo da fauna do Brasil. Popularmente conhecida por onça, onça-pintada, pintada, jaguar e outras denominações próprias de cada localidade. Isso, no tempo em que Itapoá nada mais era do que uma vasta extensão da Mata Atlântica dominando a planície costeira do nosso território. Não faz tanto tempo, coisa de menos de cinqüenta anos.
A picada não existe mais. Em seu lugar, como conseqüência da urbanização, surgiu uma via pública fazendo a ligação de Itapema do Norte com Itapoá Centro, importantes núcleos urbanos de Itapoá. No entanto, a população, senão todos, ao menos a maioria, ainda a chama de Caminho da Onça.
Quanto à onça, não se sabe. Parece que migrou ou fugiu para mais longe, na floresta que restou do seu habitat. Mateiros experientes, como o Hercílio Souza e outros, afirmam categoricamente que ela, de vez em quando, dá o ar da graça com inesperadas aparições. De existência comprovada apenas um parente próximo, a onça parda ou puma (Puma concolor), conforme identificações feitas pelos sensores das câmaras fotográficas noturnas dos pesquisadores da Univille, na RPPN – Reserva Volta Velha. As fotografias estão na reserva, expostas para quem tiver a curiosidade de vê-la.
No legislativo tramita projeto de lei para dar nova denominação ao Caminho da Onça. Parte dessa importante via pública recebe o nome de João Horácio Vieira em homenagem a ilustre cidadão itapoaense. A outra permanece informalmente com o nome popular. A proposta é mudar o nome, ou seja, com esse projeto de lei transformá-la em Avenida Zilda Arns, sem dúvida, uma justa homenagem a ilustre brasileira que tanto contribuiu para os brasileiros menos favorecidos, em especial as crianças.
O Caminho da Onça tem a ver com o que se convenciona chamar de patrimônio cultural imaterial de uma comunidade. Em outras palavras, no legado que é transmitido de geração a geração sobre os hábitos, costumes, tradições e crenças formadoras da identidade de cada lugar. Esses valores, expressos na história por denominações de logradouros precisam ser preservados, lembrados e compartilhados com as novas gerações em respeito à memória dos antecessores.
Subtrair a denominação popular do Caminho da Onça é interromper essa tradição. Trazer para o esquecimento a história da onça, surgida das nossas origens, da fantástica Mata Atlântica e seus habitantes que insistem em marcar a relevância da identidade ambiental de Itapoá. Seria como mudar para outro qualquer, o nome de Itapoá, cuja origem está nos extintos Carijós, que admiravam deslumbrados o mistério da ponta de pedra que surgia no sobe e desce das marés.
A Dra. Zilda Arns merece ser homenageada em todos os rincões. Seu trabalho transcende o aspecto temporal. A Pastoral da Criança, sua notável obra, tratou de inclusão social fundamental ao desenvolvimento de qualquer comunidade brasileira. Temos importantes ruas que poderiam receber o seu nome. Porém, o Caminho da Onça é único e está consolidado nas tradições de Itapoá. Um povo sem história é um povo sem referências, perdido no tempo.
w.serafini@onda.com.br

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