O fantasma da praia – Por Werney Serafini

O mar voltou a assombrar. Tal qual um fantasma em repentinas e sucessivasaparições.

As ressacas ocorridas em Junho castigaram Itapoá. Grandes volumes de areia
novamente foram suprimidos da praia, residências a beira mar invadidas, equipamentos
públicos ameaçados, outra das anunciadas e preocupantes catástrofes.

Proprietários sem saber o que fazer e na falta de orientação depositam enormes pedras na
praia para protegerem seus imóveis. Vã iniciativa, pois as contenções anteriores
foram tragadas pelo mar transformando as “fortalezas” em ilhas artificiais. Aviso
de que a improvisada proteção se mostra impotente à energia do mar. A
constatação evidente é que Itapoá está fadada a perder o seu maior patrimônio –
a extensa praia com areias limpas e não poluídas.

Importante foi à manifestação do vereador Izaque Goes (PSDB) na Câmara Municipal,
reconhecendo em público essa realidade.

Em seu discurso, disse que ao vir morar em Itapoá, entendia como necessária a
ocupação da orla, em especial as áreas frontais ao mar. Um espaço que poderia
receber estruturas para turismo e lazer. Não concordava com as ações civis do
Ministério Público, impedindo novas construções e sugerindo a demolição de
outras edificadas inapropriadamente. Para ele, entrave ao desenvolvimento
turístico do município.  Hoje reconhece a
assertividade do Promotor Público.

Coincidência ou não, os efeitos da ressaca se fizeram sentir justamente após o recente
aprofundamento do canal de acesso ao porto de São Francisco do Sul, reforçando
a hipótese levantada pelo geólogo e técnico da Universidade Federal do Paraná,
professor Ângulo, estudioso da erosão praial no litoral do Paraná e do norte de
Santa Catarina

Essa hipótese levou o IBAMA, na licença ambiental para as obras de aprofundamento do
canal, incluir como condicionante a realização pelo porto de São Francisco do
Sul, de estudos a respeito da erosão em Itapoá e a possibilidade do “engordamento”
da praia, a exemplo do que será feito em Matinhos/PR e foi realizado em Piçarras/SC.

Os estudos, contratados e em execução, têm prazo para conclusão. É fundamental que
sejam acompanhados e divulgados a população. Afinal é conhecido o efeito, resta
saber as causas da erosão.

A par disso, e depois de idas e vindas, o executivo deu início ao imprescindível
Projeto Orla. Um encaminhamento para diagnosticar, ordenar e projetar a ocupação
da orla marítima de Itapoá.

Isso não significa que o Projeto Orla por si próprio resolverá definitivamente a
erosão. Mas será um instrumento para se definir o que fazer em relação ao fato.

Diversas oficinas de trabalho, envolvendo executivo, legislativo, sociedade civil
organizada de Itapoá e a participação do SPU, IBAMA, Marinha e Fatma foram
realizadas. Um pré-projeto elaborado para ser submetido aos órgãos estaduais e
federais responsáveis pelo Planejamento Costeiro. Mas, parou por aí. Não foi
adiante. Está adormecido em alguma mesa.

Segundo consta, em razão de divergências técnicas referentes ao mapeamento cartográfico
elaborado pelo município e o do IBAMA. Aguarda-se, pacientemente, a
manifestação deste.

Enquanto isso o Projeto Orla fica no “compasso de espera”. O risco é de que caia no
esquecimento, como tantos importantes projetos estruturantes.

Para as pessoas que dedicaram voluntariamente o seu tempo nas exaustivas oficinas,
sobra a incomoda e frustrante sensação do “tempo perdido”. Do “faz de conta que
fazemos” ou do conhecido expediente do “deixa rolar”.

E o fantasma, persiste na assombração, protesta com a veemência da energia das
ondas. Se invadimos ou não a área do seu interesse, não lhe importa. Apenas
quer saber o que pretendemos fazer.

 

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