Vendo esta Propriedade

Por Mariene Francine Lima*

Em letras tortas, a frase mistura-se aos peixes, polvos, crustáceos e outros seres marinhos não identificados, desenhados na parede. Em alguns ângulos chega a se esconder, como não querendo ser verdade. Mas está lá, estampada na peixaria do seu Lelé:

VENDO esta PROPRIEDADE

E assim, disforme, nos confunde, parecendo estar à venda outra propriedade que não ESTA. Pois ESTA está pequena… Querendo quase apagar, querendo não estar ali.

– Aquele que oferecer o que estamos pedindo, leva. Quero ir embora daqui!

– Mas porque seu Lelé? Pergunto, querendo entender porque ele quer deixar um lugar tão lindo daqueles… Com vistas para a baía.

– Hoje a ganância tomou conta daqui. Por isso quero ir embora.

Senta-se e continua:

– No tempo que eu pescava, o homem tinha valor… Hoje em dia é a mentira que tem valor. Antigamente todo mundo se ajudava, nós éramos mais indígenas do que pescador. Nós vivíamos em companheirismo. Nós não tínhamos família, a família era todo mundo. Pois quando alguém queria fazer uma roça, puxar um barco, ou armar uma rede, não tinha só a família, tinha a vizinhança. Era companheirismo e educação misturados.

Suspiro…

– Hoje a ganância tomou conta daqui. Itapoá era tudo. Hoje o companheirismo e a educação sumiram.

– E para onde o senhor quer ir?

Mais um suspiro… Olha longamente a baía e diz:

– Eu quero ir embora, mas quero ficar perto do mar. O mar é a minha vida, é a coisa mais linda do mundo… Tudo o que tenho eu devo ao mar, tudo o que eu fazia tinha que ser pelo mar.

***

Passam-se as horas, o dia cai e as histórias continuam. Muitas são as histórias. Histórias do lugar, histórias da sua vida, histórias do seu tempo… Um tempo que agora lhe parece distante, como se tivesse ficado para trás. Solto, perdido. Tempos de outrora, tempos do hoje em dia. Conversas do lugar, bates-papos descontraídos. Lembranças.

Lembrança de uma bicicleta, já há muito guardada no galpão. Galpão esse que também guarda suas pescarias. Redes, bóias e anzóis, que dependuram-se uns sobre os outros numa canoa há tempos por ali esquecida. Galpão escuro, fechado, cujas costas dão-se à baía. Baía que é o quintal de seu Lelé, abrigo do Lutador, valente barco que por muito tempo o acompanhou nessas calmas, falsas águas da baía. Lutador que já não existe mais… Fora vendido, apagado com tinta um nome que ainda hoje é lembrado pelo seu Lelé.

– Seu Lelé, quem dá os nomes aos barcos?

– São os pescadores.

– Foi o senhor que escolheu o nome do teu barco?

– Não… O meu foi escolhido pela Marinha. Deram o nome de Lutador… Por tudo que eu já fiz aqui nessa baía.

– Me conta alguma coisa sobre o Lutador? Alguma história.

Silêncio.

Mais uma tentativa:

– O senhor me disse que foi a Marinha quem deu o nome de Lutador. O que o Lutador já fez? – Tento convencê-lo com certa insistência.

Suspiros…

A mão passa a boca tentando calar. A voz emudece. A cabeça nega. Agora as mãos já passam aos olhos, a enxugar as lágrimas incontidas. Lágrimas de lembranças, lágrimas de perdas.

Já não insisto mais.

Negar a perda? Negar as histórias? Negou-se a fala. Palavras perdidas.

Seu Lele  levanta, pede licença, alega ir ao banheiro. Perde-se por dentro da casa. Dona Anair, esposa do seu Lelé, chega de mansinho, senta ao meu lado e diz:

– Ele teve vários barcos… Sempre com o mesmo nome: Lutador.

Me ajeito para melhor escutá-la, ela continua:

– Teve uma mulher que teve nenê no barco. De noite, às vezes, ele levantava para levar as mulheres para ter filho lá em São Francisco. Dessa vez, ele não conseguiu chegar a tempo em São Francisco, e ela acabou tendo o nenê dentro do barco.

Se Lelé reaparece na porta, caminha em nossa direção e senta novamente ao meu lado. Dona Anair se levanta e vai para casa lavar a louça que a espera na pia.

Ficamos em silêncio a olhar o fim de tarde na baía.

E no silêncio, eis que surge pequena confissão:

– Viveria tudo novamente só para provar aquele nome ali.

Lutador jaz no nome apagado, nos muitos barcos que foram de seu Lelé, mas deixa em sua memória as tristezas e alegrias por tudo aquilo que ele viveu.

Silêncio. Vazio.

VENDE-SE esta PROPRIEDADE.

 

*Mariene Francine Lima é bióloga, Mestre em Educação pela UFPR e colaboradora da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental. O texto faz parte da dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação pela UFPR:  “Mares e Pescadores: Narrativas e conversas em Itapoá”.

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