Como você pôde?

Folha de Itapoá – Edição 74


Quando eu era um filhote…
… você me amava muito, apesar dos sapatos mascados. Eu fazia algo errado e você, chacoalhando o dedo, dizia: “Como você pôde?” – mas depois me rolava no chão, coçava minha barriga, arrependido. A gente só se afastava um do outro quando você ia trabalhar. Era tudo perfeito.
Depois você resolveu trabalhar mais e até namorar. E eu o confortava em suas mágoas, desilusões. Aí ela surgiu, e não gostava de animais. Eu bem que tentei, mas ela não me dava bola. Então vieram os bebês, e vocês não queriam que eu ficasse com eles. Tinham medo não sei do quê. Eu passava o tempo fechada na casinha de cachorro.
Quando eles já eram maiores, brincamos bastante; podia até defendê-los com minha própria vida se fosse preciso. Mas essa alegria durou pouco. Um certo dia, quando eu já tinha uma certa idade e você também, veio a proposta de mudar de emprego e de cidade. Você aceitou. Aí me convidou para um passeio.
Quando percebi, estava num abrigo de cães ouvindo você falar pra atendente: “Sei que encontrarão um bom lar para ela”. Seu próprio filho gritou: “Não, papai, não deixe que levem meu cão!” Passado um bom tempo, já morrendo de tristeza, a dona do canil veio com uma injeção e resolveu meu problema para sempre. Coitada, ela não queria. Com minha última gota de vida, pensei: “Como você pôde, meu grande amigo?” (inspirado no texto de Jim Willis).

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